Marquês de Pombal


Projecto inicial do Observatório, a construir sobre as ruínas do castelo.


Planta do Observatório Astronómico. No canto inferior direito pode ler-se o nome de "Monteiro da Rocha". Localização final do Observatório Astronómico, no Pátio das Escolas.

 


Observatório do Pátio da Universidade.


Estatutos


Quadrante Mural, Observatório Astronómico UC (Fabricante: TROUGHTON, Londres Ano: 1781)


Fase de demolição do mesmo Observatório.

OBSERVATÓRIO GEOFÍSICO E ASTRONÓMICO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Em 2013 foi criado o Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra resultante da fusão, entre o Observatório Astronómico da UC (fundado em 1772) e o Instituto Geofísico da UC (fundado em 1864), sendo presentemente um serviço interdepartamental da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, partilhado pelos Departamentos de Ciências da Terra, Física e Matemática. Focado no estudo do Universo, o Observatório tem ainda uma missão específica, que passa por adquirir, preservar, processar, interpretar e disseminar informação a todas as escalas sobre o conhecimento e a exploração do Sistema Solar, principalmente nas suas componentes geofísica e astronómica.


"As vantagens, que resultam de se cultivar eficazmente a Astronomia, como todas as mais partes da Matemática, de que ela depende, são de tão grande ponderação, e de consequências tão importantes ao adiantamento geral dos conhecimentos humanos; e à perfeição particular da Geografia, e da navegação; que tem merecido em toda a parte atenção dos Soberanos, fazendo edificar Observatórios magníficos destinados ao progresso da Astronomia, como Ciência necessária para se conseguir o conhecimento Globo terrestre; e se terem nas mãos as chaves do Universo. Atendendo ao referido: Mando, que na Universidade se estabeleça um Observatório; assim para que os Estudantes possam nele tomar Lições de Astronomia Prática; como também para que os Professores trabalhem com assiduidade em fazer todas as Observações, que são necessárias para se fixarem as Longitudes Geográficas; e rectificarem os Elementos fundamentais da mesma Astronomia (...)".


Assim se pode ler nos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772 as razões e linhas de orientação para a criação do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra: um estabelecimento de ensino e de investigação !
A criação do Observatório Astronómico inseriu-se num projecto mais vasto, durante o reinado de D. José I, que ficou conhecido por Reforma da Universidade de Coimbra ou Reforma Pombalina, dado a indelével marca deixada neste processo pelo Marquês de Pombal.

 


O processo de edificação do Observatório, tanto físico como científico, sofreu algumas vicissitudes, que só no fim do séc. XVIII são ultrapassadas. O projecto inicial, uma majestoso edifício, foi abandonado em Setembro de 1775, provavelmente, devido ao previsível exagerado custo. Em definitivo começou a ser erigido, em 1790, um edifício no Pátio da Universidade "mais singelo mas de elegante construção." (1872, Castro Freire - Imprensa da Universidade de Coimbra).

 

As obras terminaram em 1799 e numa carta do Príncipe Regente D. João VI (1767-1826) ao Reitor da Universidade de 4 de Dezembro do mesmo ano é ractificada a vocação do Observatório Astronómico "(...) o Estabelecimento do Observatório dessa Universidade e atendendo a que ele não somente deve servir para demonstrações práticas da Astronomia, mas também para se trabalhar assiduamente nas observações mais apuradas, e exactas (...)". Permitimo-nos destacar aqui a insistência na palavra "assiduidade" que terá enorme repercussão no tipo de trabalho desenvolvido pelo Observatório Astronómico. Estamos a referir, por exemplo, à publicação de efemérides astronómicas iniciadas em 1802.

 


Esta obra e as edições seguintes tiveram um impacto considerável na Astronomia da época. Vários foram os astrónomos de renome como Barão de von Zach ou o francês Delambre que se referiram às efemérides de Coimbra com elogio. Na realidade tal como Rudolfo Guimarães afirma as efemérides de Coimbra estavam longe de ser uma cópia de almanaques estrangeiros (1909 - Imprensa da Universidade de Coimbra). Nos seus primeiros anos as Efemérides de Coimbra foram uma constante fonte de novidades científicas: determinação de eclipses (volumes para os anos 1804 e 1807); posições de Marte (1804); determinação da longitude geográfica (1804 e 1805); métodos de interpolação (1808 e 1809); etc. A publicação das Efemérides do Observatório Astronómico manteve-se, quase ininterruptamente, até aos dias de hoje.

Neste processo de estabelecimento do Observatório Astronómico como instituição científica há uma figura que se destaca: José Monteiro da Rocha, que foi o seu primeiro Director. No nosso último artigo incluiremos algumas notas sobre a personagem de Monteiro da Rocha. No entanto é incontornável referi-lo nesta oportunidade já que uma parte importante da sua vida científica se confunde com os primeiros anos do Observatório. Desde já Monteiro da Rocha participou de forma activa na Reforma da Universidade em particular no que concerne as Faculdades de Matemática e Filosofia. Foi ainda o grande impulsionador da publicação das Efemérides, incluindo trabalhos seus nos primeiros volumes. Francisco Costa Lobo, um marco da Astronomia nacional do séc. XX, não hesita apelidar Monteiro da Rocha como um astro de primeira grandeza.

Importa agora referir alguns aspectos mais organizativos e técnicos dos primeiros tempos do Observatório de Coimbra. Foi criado um quadro composto por um Director, que tinha que ser um lente jubilado, dois astrónomos (sendo o primeiro o lente da cadeira de Astronomia), quatro ajudantes, um guarda, um praticante de guarda e um porteiro.

Este quadro de pessoal traduz a natural ligação do Observatório ao ensino prático da Astronomia. A Reforma da Universidade instituíra uma cadeira de Astronomia no quarto ano do curso da Faculdade de Matemática, do qual foi primeiro professor Miguel António Ciera, engenheiro italiano que veio para Portugal a meados do séc. XVIII com o objectivo de ajudar à demarcação geográfica. O programa da cadeira de Astronomia traduzia a real vontade de colocar o ensino português em consonância com o que se fazia de melhor na época. O professor deveria ensinar os movimentos dos planetas de acordo com a teoria de Newton tendo o Sol como centro:

No que concerne o equipamento o Observatório Astronómico recebeu uma parte importante do espólio do Real Colégio dos Nobres, em Lisboa, fruta da abolição dos estudos matemáticos nessa instituição em 1772.
Mas as exigências de observações precisas necessitavam de equipamento suplementar. Sobre a direcção de Monteiro da Rocha podemos encontrar "(...) dois bons quartos de círculo de Adams, pendulas de Magalhães e Carnshaw, (...) um quadrante de Troughton, o óculo de passagens de Dollond, e a bela pendula de Berthoud, instrumentos mais perfeitos com os quais se começaram as observações de alturas e passagens meridianas." (1872, Castro Freire - Imprensa da Universidade de Coimbra).

 

É inquestionável o valor da criação do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra para evolução do estudo da Astronomia em Portugal. Foi o primeiro grande Observatório nacional e traduziu a vontade da época em aliar o conhecimento teórico ao prático com reais vantagens para a Ciência portuguesa.

O Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra funcionou local inicial durante cerca de 150 anos. Já no século XX, no início dos anos quarenta, o novo plano da Cidade Universitária previa a demolição do Observatório do Terreiro, no intuito de lhe destinar novas instalações mais consentâneas e de modo a desanuviar o pátio da Universidade.

Assim, o Observatório foi transferido para o Alto de Santa Clara em 1951. Desde então o Observatório tem funcionado nestas instalações. Actualmente, ali desenvolve actividades científicas, de ensino e divulgação em Astronomia.

Instituto Geofísico da Universidade de Coimbra

O Instituto Geofísico da Universidade de Coimbra (IGUC) foi criado em 1864 no local onde ainda funciona, na Cumeada, hoje avenida Dr. Dias da Silva. Chamava-se então Observatório Meteorológico e Magnético e, desde então, tem sido sempre o mais completo centro português de monitorização ambiental. Aí se recolhem e tratam dados de Meteorologia (desde 1864), Magnetismo (1866 – desde inícios do séc. XX que é o único observatório português), Sismologia (1891 – primeira estação sísmica portuguesa) e Ciência Planetária (2002 – primeiro laboratório português reconhecido pela Agência Espacial Europeia para o estudo de Marte). Pode ser difícil compreender, para quem financia a ciência, a necessidade de haver instituições cuja missão é registar dados ininterruptamente. Os investimentos nestes laboratórios não se traduzem direta e imediatamente em receitas. Nem os investimentos na saúde, aliás, e esta pode ser uma boa analogia. Todos somos sensíveis às doenças do nosso planeta. Quando estamos doentes, os médicos não começam o diagnóstico pela cirurgia. Primeiro estudam a nossa história clínica e depois servem-se de meios complementares como as análises clínicas, as radiografias ou os eletrocardiogramas. É o que faz o IGUC há um século e meio: arquiva a “história clínica” da Terra para ajudar a diagnosticar a sua saúde. Vejamos como. A Sismologia “toma o pulso” e, ao mesmo tempo, “radiografa” o interior do planeta; são as suas ferramentas que nos permitem localizar jazidas de petróleo; é ela que nos ajuda a estimar riscos e, assim, ordenar melhor o nosso território. A Meteorologia mede e regista a nossa temperatura (do ar, do solo), o nosso “aspeto” (as várias formas de radiação solar), a nossa “respiração” (pressão atmosférica, velocidade e direção dos ventos) e, até, a hidratação da nossa “pele” (precipitação, humidade atmosférica e do solo, evaporação). Os registos do Observatório Magnético são os “eletrocardiogramas” do Sistema Solar. Para além do campo geomagnético principal, originado no núcleo da Terra, que dirige as agulhas das bússolas para o Norte (aproximadamente – ou, às vezes, para o Sul...), o nosso planeta está permanentemente mergulhado em campos eletromagnéticos originados no Sol. Ocasionalmente, esses campos podem ser tão fortes que perturbam a nossa vida, alimentada pela energia elétrica e pelas telecomunicações. Antes de lançar um medicamento no mercado fazem-se ensaios clínicos. Os nossos são os estudos de outros planetas, que nos ajudam a compreender melhor o passado da Terra e, esperamos, a prever a sua evolução futura. Para além das quatro componentes nucleares do trabalho do IGUC, outras têm vindo a ser acrescentadas ao longo dos anos, como a recolha de pólenes atmosféricos, o registo das radiações ionizantes na atmosfera e a qualidade do ar, em cooperação com outras instituições. O mais recente projeto do IGUC é a integração de todos os seus dados numa plataforma de avaliação e previsão das ameaças espaciais sobre a Terra. Para esse fim uniu-se, em 2012, ao Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra formando agora o Observatório Geofísico e Astronómico, preparado para oferecer à sociedade mais 150 anos de ciência. Só poderemos saber o que vai mal com a saúde planetária se preservarmos, analisarmos, continuarmos e acarinharmos as longas séries de dados de antigos observatórios como o nosso. Afinal, quem pensaria em menosprezar as análises clínicas?

* Texto do Dr. Ivo Alves, Diretor do Instituto Geofísico da Universidade de Coimbra entre 2001 e 2012

     
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